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DIRETO DA ARGENTINA

Artigo I A greve geral na Argentina e o início de um plano de luta

"A política do povo não deve estar exclusivamente subordinada à institucionalidade e à democracia burguesa"

Buenos Aires (Argentina) |
Durante a mobilização em frente ao Congresso em 24 de janeiro, assembleias de bairros transformaram-se em expressões visuais - AFP

No dia 24 de janeiro, a Argentina testemunhou uma impressionante paralisação que envolveu todo o país, com milhares de pessoas se mobilizando nos principais centros urbanos.

Na emblemática Praça do Congresso, em Buenos Aires, manifestantes clamavam por um plano de luta ativa para o rechaço completo do Decreto de Necessidade e Urgência, da Ley Ómnibus e do Protocolo Repressivo, propostos pelo governo de Milei e submetidos à avaliação legislativa.

O "Paro General" marcou-se como a greve mais rápida mobilizada logo após a posse de um novo presidente.

Convocada pelas principais centrais sindicais, a greve atendeu à pressão iniciada ainda em dezembro do ano passado com manifestações de diversos setores sociais, estudantis, independentes e organizações da nova esquerda. Desde então, a Argentina viveu uma intensa atividade militante, com assembleias de bairros, sindicatos e locais de trabalho, especialmente no setor cultural.

Semanalmente, essas reuniões se comprometeram a construir uma agenda coletiva com a classe, debatendo a necessidade de ampliar o movimento, as demandas específicas de cada grupo e a organização das colunas, ao mesmo tempo em que resgatou elementos de lutas históricas do país.

A greve contou com a ampla participação de diversas organizações, sindicatos vinculados à CGT e CTA, setores sindicais combativos, movimentos sociais, grupos de vizinhos, trabalhadores da cultura, ciência e saúde, estudantes, professores, movimentos feministas e partidos de esquerda ligados à Frente de Izquierda y Trabajadores - Unidad. Entre esses partidos, o MST (Movimento Socialista dos Trabalhadores), representante da Liga Internacional Socialista na Argentina, e no Brasil representado pela Revolução Socialista, uma tendência interna do PSOL.

A importância dos partidos revolucionários se mostrou evidente ao pressionar as centrais sindicais para a necessidade de construir espaços democráticos, de assembleia com os trabalhadores sindicalizados. Manter a construção da luta independente e autônoma, de greves e mobilizações para o dia da votação legislativa dos projetos de Milei e combater o avanço neoliberal nas ruas, a despeito das negociações no Congresso.

A nova esquerda radical também se mostrou relevante especialmente quando desafiaram o protocolo repressivo estabelecido por Patricia Bullrich, Ministra de Segurança do governo, durante os eventos de 20 de dezembro. Isso demonstrou à classe trabalhadora argentina que a política do povo não deve estar exclusivamente subordinada à institucionalidade e à democracia burguesa, mas também ser fundamentada nas manifestações populares massivas e nas ruas.

Além da medida de força com Milei, as centrais sindicais também demonstraram suas contradições no ato. Nenhum dos pronunciamentos de seus principais dirigentes continham propostas de continuidade da luta, apesar da imensa força de mobilização e que poderia ter sido maior, se tivesse uma direção combativa e democrática, de acordo com as necessidades que enfrentam hoje.

A capacidade de mobilização do povo argentino se destaca como um exemplo para outras experiências vivenciadas na América Latina. Durante a mobilização em frente ao Congresso em 24 de janeiro, assembleias de bairros transformaram-se em expressões visuais, representadas pelas faixas pintadas pelos próprios vizinhos, reivindicando seus direitos e a necessidade de continuar a luta. Após uma intensa articulação, marcharam unidos em direção ao Congresso, juntando-se à população que continuava a chegar.

A construção contínua dentro dos sindicatos não se restringiu apenas às representações das centrais sindicais; de maneira mais notável, espalhou a organização da classe que se desenvolve nesses espaços. Esse dinamismo ficou evidente nas assembleias públicas promovidas pela “Unidos Pela Cultura”, um espaço independente que emergiu durante a fervorosa luta pela extensão da lei que permitia o financiamento da cultura nacional.

Esses encontros ocorreram em momentos anteriores ao dia da greve, ressaltando que uma cultura de mobilização não se estabelece por meio de reivindicações vazias, mas sim por meio da construção colaborativa e participação ativa em espaços de luta e organização política.

A greve marca o início de um ano que será dedicado à construção da luta do povo argentino, não apenas como um ato de resistir, mas também como um esforço para criar uma alternativa ao governo Milei e a qualquer outro que se apresente como uma solução mágica para problemas que não surgiram recentemente.

A complexidade dessas questões não será resolvida por soluções simplistas e falsas. Os desafios enfrentados pela Argentina exigem uma análise abrangente, considerando todos os seus aspectos históricos e econômicos dos governos anteriores, de um capitalismo dependente e influenciado pelo imperialismo, e da história da América Latina como um todo.

Se faz necessário continuar construindo com a classe a partir de balanços da última mobilização, assembleias de discussão e convites a novos participantes nos “cacerolazos” (panelaços) de bairros, nos locais de trabalho e demais organizações sociais.

O próximo desafio será organizar a militância e o ativismo para sair nas ruas novamente na próxima quarta-feira, dia 31, e provável momento em que a Ley Ómnibus será votada.

 

*Mariane Panek, psicóloga comunitária com atuação popular, militante da revolução socialista/PSOL e da Liga Internacional Socialista.

**Lucas Caron, estudante de Economia da Universidade Federal do Paraná, militante da revolução socialista/PSOL e da Liga Internacional Socialista.

****As opiniões expressas nesse texto são de responsabilidade do/as autores/as e não representam necessariamente a posição do jornal Brasil de Fato

Edição: Pedro Carrano