Rio Grande do Sul

Consciência Negra

Pré-lançamento do livro João Cândido e os Navegantes Negros acontece nesta sexta-feira (16)

Evento no Memorial Luiz Carlos Prestes contará com a presença da autora, professora Sílvia Capanema, e convidados/as

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Sílvia, ao lado do filho do João Cândido, Adalberto Cândido (Candinho), no lançamento do livro no Museu da República, no dia 10 de dezembro - Foto: Arquivo Pessoal

Em 1910, João Cândido, o Almirante Negro, e seus companheiros, realizaram uma das maiorias revoltas navais da história mundial e a maior revolta do pós-abolição no Brasil, a Revolta da Chibata, exigindo cidadania, justiça e dignidade. 

É a história desses personagens deste contexto histórico que trata o livro João Candido e os navegantes negros: a Revolta da Chibata e a Segunda Abolição, da historiadora e professora Sílvia Capanema. No livro, a mineira naturalizada francesa, que já foi vereadora na França e atualmente é conseillère départementale de Seine-Saint-Denis (o departamento, posto que seria equivalente a um deputado estadual ou metropolitano), destaca o que foi esse movimento: como as torturas impostas aos africanos e seus descendentes. "Nas punições corporais, em muitas delas era utilizada a chibata, objeto que fora usado para castigar negros escravizados."

“Os marujos de 1910 exigiam exatamente o que o texto exige: nenhum ser humano será discriminado, escravizado, mantido sem liberdade, sem direitos e torturado. Essa relação ficou muito forte ali naquele momento. Muito importante a luta deles, uma luta universal e que existe até hoje, por igualdade e dignidade. Por isso, o livro tem chamado tanta atenção por todo lugar em que o lançamos”, afirmou a autora ao Brasil de Fato RS, em entrevista sobre o lançamento do livro em Porto Alegre, que acontecerá nesta sexta-feira (16), às 19h30, no Memorial Luiz Carlos Prestes.

O encontro contará com a mediação de Maister F. da Silva, colunista do Brasil de Fato, e as participações das deputadas Karen Santos e Stella Farias e do ex-deputado Raul Carrion (em vídeo). Assim como a presença de familiares de João Cândido e de diferentes lideranças dos movimentos sociais e do movimento negro. 


Pré-lançamento será no Memorial Luiz Carlos Prestes / Divulgação

Abaixo a entrevista completa

Brasil de Fato RS - O que te motivou a escrever sobre João Cândido e a Revolta da Chibata e a Segunda Abolição?

Sílvia Capanema - O livro é uma versão atualizada e traduzida por mim, da minha tese de doutorado sobre o tema, defendida na EHESS, em Paris. Um trabalho de 10 anos de pesquisa. Já tinha publicado muitos artigos em várias línguas, mas faltava ainda o livro publicado no Brasil.

Eu comecei a pesquisa em 2002, quando fui a São João do Meriti para entrevistar Zeelândia Cândido, filha de João Cândido, falecida em 2006. Era para o meu mestrado sobre a memória da revolta. Acabou virando também um doutorado. Tudo isso está no livro.

Meu interesse pela revolta começou com um interesse pelo período histórico da primeira República e pelas revoltas populares. Eu gostava da revolta da vacina e do livro Os Bestializados, de José Murilo Carvalho.

O contexto dos anos 2000 nos chamava a atenção para as questões raciais. Acabei ficando fascinada pelo pós-abolição e por esta revolta.

BdFRS - Que segunda abolição seria essa? 

Sílvia - A segunda abolição tem duas explicações. Uma pelo fato de muitos abolicionistas, como Joaquim Nabuco, Luiz Gama, etc., insistirem sobre a necessidade de haver uma outra abolição, com reparação para os descendentes de escravizados. 

Alguns autores, como Petrônio Domingues, falam de Nova Abolição. E Florestan Fernandes falava, em 1988, no centenário da abolição, da necessidade de ser feita uma segunda abolição no Brasil. 

A segunda razão pela qual uso a ideia de segunda abolição é porque os marujos de 1910, na maioria negros e pardos, muitos filhos e descendentes de escravizados, alguns nascidos ventre livre, como João Cândido, falavam de liberdade, de acabar com a escravidão na Marinha. Em não ser mais escravos de oficiais, e sim marinheiros e cidadãos brasileiros e republicanos. Eles tinham isso muito claro. 

Assim como o Brasil foi o último país do espaço ocidental a abolir a escravidão, a Marinha brasileira foi a última Armada a abolir a chibata do código disciplinar. E ela só foi abolida em 1910 graças à revolta dos marujos.

BdFRS - Como esse período da história se relaciona com os tempos atuais? 

Sílvia - A revolta dos marinheiros de 1910 foi uma luta pelos direitos humanos, por cidadania e antirracista. Bem a frente do tempo em termos de projeto e proposta, bem visível nos discursos e comunicados deles. Eles pararam o Brasil em 1910 para chamar atenção para isso tudo. E hoje estamos discutindo essas questões. 

No dia 10 de dezembro, fizemos um belo lançamento do livro no Museu da República, no dia da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Eu pude ler, diante dos pais de Marielle Franco, de ex-marujos de 1964 perseguidos pela ditadura, de pessoas do movimento negro, de moradores de São João de Meriti engajados no projeto do Museu João Cândido, do filho de João Cândido, neta, bisnetos, de historiadores e muitas outras pessoas presentes, os cinco primeiros artigos da declaração de 1948. 

E os marujos de 1910 exigiam exatamente o que o texto exige: nenhum ser humano será discriminado, escravizado, mantido sem liberdade, sem direitos e torturado. Essa relação ficou muito forte ali naquele momento. Muito importante a luta deles, uma luta universal e que existe até hoje, por igualdade e dignidade. Por isso, o livro tem chamado tanta atenção por todo lugar em que o lançamos.


"Há muito poucos heróis populares do pós-abolição com rosto, memória, descendentes, conhecidos no Brasil" / Foto: Arquivo Pessoal

BdFRS - Novembro é celebrado o mês da consciência negra, onde diversas atividades têm destacado a luta antirracista. Como tu analisas a necessidade de reconhecimento e reparação histórica? Como a falta destes elementos contribuem para os casos de racismo que continuamente são perpetrados?

Sílvia - Olha, o fato de a revolta acontecer em novembro é em si uma bela coincidência. Temos a ocasião de reforçar a necessidade de lembrar e alertar sobre a igualdade que temos de atingir no Brasil. Igualdade social e racial, as duas coisas vão juntas, como sabemos há muito tempo. O Brasil é um dos países que demonstra mais nitidamente isso.

Em todos os encontros em torno do livro, a questão da reparação veio à tona. Uma reparação para os sujeitos e atores históricos. Muitas pessoas, nesse caso, demonstram como seria necessário que João Cândido se tornasse reconhecido como herói da Pátria, reincorporado à Marinha e que sua família pudesse receber indenização financeira e simbólica, bem como outros marujos injustamente perseguidos. 

O Brasil tem uma chance histórica de fazer isso agora, uma oportunidade única. Foram 2.300 marujos rebeldes, mas diretamente, 70 marujos que foram indiciados no processo de guerra que se concluiu em dezembro de 1912, sofreram graves consequências. 

Hoje, somente duas famílias foram localizadas, a de João Cândido e a de Adalberto Ferreira Ribas. Outras podem aparecer. Elas merecem receber o reconhecimento que seus antepassados não tiveram. Eles foram presos sem razão, perseguidos uma vida inteira. 

Essa reparação é uma chance única. Há muito poucos heróis populares do pós-abolição com rosto, memória, descendentes, conhecidos no Brasil. Por isso, é uma oportunidade única. E enquanto ainda há pelo menos um filho ainda vivo (no caso do João Cândido).

Além dessa reparação dos atores sociais, é necessário agir para uma reparação coletiva. Uma outra narrativa da história e da memória. Há um projeto de museu Marinheiro João Cândido em São João de Meriti. Um outro projeto de casa de memórias. Muito importante executar esses projetos. E outros. Uma forma de dar autoestima e reconhecimento a toda uma população, jovens de periferia.

Para as Forças Armadas também. Colocar estas páginas na história nacional e da Marinha. E reconhecer que buscamos Forças Armadas cidadãs, com um papel de cidadania e justiça na sociedade. 

Espero que o presidente Lula escute a sociedade civil articulada nessas demandas. A hora é agora!

Além dessa reparação dos atores sociais, é necessário agir para uma reparação coletiva

BdFRS - Por fim, gostaria que tu nos falasse um pouco da tua trajetória e tua vivência como vereadora em Paris.

Sílvia - Fui para a França fazer um intercâmbio que acabou virando uma tese. Passei num concurso para professora no departamento de estudos ibéricos e ibero-americanos na Universidade Sorbonne Paris Nord em 2010, onde ainda estou, como pesquisadora também no Campus Condorcet agora. 

A atividade política está também ligada à consciência que adquiri durante minha tese, estudando a revolta dos marinheiros, tema também estudado por Edmar Morel, Álvaro Pereira do Nascimento, José Miguel Arias Neto e outros. 

Eu sempre fui de esquerda e sempre acompanhei a trajetória do Lula. Mas o fato de ir morar na periferia de Paris, em Saint-Denis, periferia popular na região mais pobre da França, lugar que recebe imigrantes do mundo todo e em particular da África e África do Norte, ajudou para nascer um novo engajamento político.

Em Saint-Denis eu vi todo o esforço que havia pelos serviços públicos feito por uma periferia liderada pelo PCF há anos. Mas também o tanto que devia ainda ser feito, sobretudo em matéria de luta contra as discriminações.

Comecei a militar em coletivos feministas e no PCF. Fui eleita vereadora em 2014 e depois conseillère départementale de Seine-Saint-Denis (o departamento, posto que seria equivalente a um deputado estadual ou metropolitano). Fui reeleita em 2021, agora pelo movimento da França Insubmissa. Participei do parlamento da união popular na campanha de Jean Luc Mélenchon em 2022. 

Além disso, em 2019, fundei com colegas universitários o RED-Br, uma ONG que foi muito ativa para denunciar as ameaças à democracia brasileira com a extrema direita no poder. 

A luta pela democracia, pela universidade pública de qualidade, pelos direitos social, antirracista, pela juventude e direito das crianças e feminista são minha principal agenda.


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Edição: Katia Marko