Paraná

Luta pela terra

Comunidade Reduto de Caraguatá celebra 17 anos de luta com partilha de alimento, no Paraná

Famílias da cidade de Paula Freitas receberam alimentos da Reforma Agrária, reforçando a solidariedade popular camponesa

Curitiba (PR) |
Comunidade é formada por 36 famílias trabalhando na terra - Foto: Juliana Barbosa

Na quinta-feira (17), as famílias do acampamento Reduto de Caraguatá, de Paula Freitas (região sul do Paraná), completaram 17 anos de luta pela Reforma Agrária da área. A comemoração aconteceu no sábado (19), com doação de cestas de alimentos para as famílias em situação de vulnerabilidade do município.

As 150 cestas foram entregues para o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), que distribuiu para as famílias já cadastradas. Cada kit foi recheado de esperança e comida boa, entre pão caseiro, abóbora, feijão, arroz, banana e melado (a maioria produtos agroecológicos), totalizando quase uma tonelada de alimentos.


Cestas foram montadas com uma variedade de alimentos, a maioria agroecológicos / Fotos: Juliana Barbosa

A ação faz parte da campanha nacional de solidariedade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a quem enfrenta a fome na pandemia. No Paraná, já foram doadas mais de 880 toneladas de alimentos.

“Todo o município será abraçado com as cestas, pois há muitas demandas de pessoas em situação de vulnerabilidade. Na pandemia, aumentou muito a situação, pois o auxílio emergencial não chegou para todos. Com o aumento do custo de vida das pessoas, ele foi insignificante, por isso a importância dessa doação que o movimento está fazendo”, afirmou Aysslan José Estácio Alves, Coordenador do CRAS de Paula Freitas.

Partilhar para celebrar

Para a dona Geny das Graças Pontes, moradora do acampamento Reduto de Caraguatá, o sentimento é de realização por celebrar o aniversário da comunidade com a partilha. Ela e o coletivo da comunidade fizeram a colheita dos alimentos que foram nas cestas.

“Aqui a gente não passa fome. É uma alegria saber que esse alimento vai ser a comida no prato de alguém que não tem, é um alívio no coração, porque não é doação apenas de comida, é de amor e de esperança”, declarou a agricultora.


Geny das Graças (no centro) e Ayslann José (à direita): entrega simbólica da comunidade para o CRAS de Paula Freitas / Foto: Juliana Barbosa

Reduto de Caraguatá: herdeiros de uma luta histórica 

A região onde hoje está a comunidade fez parte do grande território afetado pela Guerra do Contestado, o maior confronto civil-militar ocorrido entre o Paraná e Santa Catarina no século passado. No conflito, o governo federal e os dois estados usaram de suas forças militares para expulsar posseiros, caboclos e pequenos agricultores. Estima-se que 25 mil camponeses foram mortos durante quatro anos de guerra.

O nome do acampamento de Paula Freitas homenageia o Reduto de Caraguatá, uma das “cidades santas” formadas pelos camponeses para resistir e enfrentar as tropas dos governos. O Reduto ficava no interior do atual município de Lebon Régis, em Santa Catarina, e teve como maior líder espiritual e militar a jovem Maria Rosa - também homenageada pelo MST em uma comunidade de Castro (PR). 


Comunidade está localizada em território afetado pela Guerra do Contestado / Foto: Juliana Barbosa

Em pesquisa feita pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), as famílias da comunidade receberam um título por, desde a ocupação, preservarem o meio ambiente e as araucárias, símbolo do município e do estado.

Rodrigo Athayd, morador do acampamento, enfatizou o papel essencial do MST no cuidado com a natureza. “Por isso a importância da gente dar continuidade nessa luta com o Movimento Sem Terra e reforçar a agricultura familiar, a preservação ambiental e autonomia alimentar. O MST se coloca herdeiro dessa luta histórica”, completou.


Acampamento Reduto de Caraguatá, em Paula Freitas (PR), luta há 17 anos pela Reforma Agrária / Fotos: Juliana Barbosa

O último dia 17 de fevereiro foi de muita celebração para as 36 famílias camponesas com almoço comunitário e bolo. Depois de tantos anos de luta, trabalho e esforço, agora podem produzir e partilhar os frutos da terra conquistada.

"É um sentimento de orgulho. Primeiro porque estamos fazendo o que está na Constituição, que é a terra ter sua função social. Essa é sua função, produzir a comida que alimenta hoje as famílias do acampamento, mas também as da cidade. Esse é o legado do MST", finalizou Luiz Carlos Rocha, conhecido como Rochinha, integrante da coordenação da comunidade.

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Edição: Lia Bianchini