Paraná

DEBATE

Babu tem razão? Preto ou negro

O fundamental neste debate é que Babu nos aciona a pensar sobre os sentidos das palavras

Curitiba (PR) |
O que tem feito o Brasil para combater o racismo que afeta a vida das pessoas - Divulgação do programa

Faz tempo que tenho pensado em escrever sobre os termos utilizados no campo das relações raciais e a urgência se deu após conversa com meu filho (aproveitando a possibilidade do isolamento social) que me indaga sobre o tema hoje pela manhã.

A pergunta dele foi: mamãe, o correto é dizer que uma pessoa é preta ou que ela é negra? Curiosa quis saber de onde veio a questão e ele me diz que é o debate do momento nas várias mídias sociais motivada pelo ator Babu no programa Big Brother Brasil 20 no dia 01/04. Segundo ele, é inadequado o uso da palavra NEGRO para nos referirmos às pessoas ascendentes de africanos. Será que Babu tem razão? Quais outros termos são usados para denominar tais pessoas? Em uma rápida revisão de memória acrescentaria além dos dois problematizados temos com largo uso os termos afrodescendente e afrobrasileiro. Nem entrarei na seara de categorias como: moreno, pessoa de cor porque estas são totalmente incorretas, seja do ponto de vista acadêmico seja do chamado politicamente correto (sim eu defendo isso!!!, mas também não cabe aqui discutir).

O uso de categorias para nos referirmos ao pertencimento étnico-racial das pessoas varia de acordo com o contexto cultural em que as relações foram construídas e são dinâmicas, ou seja, não há um certo ou errado absoluto. Babu se posiciona contrário ao uso do termo NEGRO e seu argumento se ancora em uma explicação de que a palavra venha do grego.

Ele diz: “nigru é inimigo” (BBB 20 01.04.2020). Creio que esteja equivocado. De acordo com o dicionário Aurélio (2011) a origem da palavra é o Latin (NIGRUM), confirmado por mim em outros dicionários de Português, como o online Michaelis (2020), por exemplo. Indagado por uma das pessoas que o ouve sobre o que seria correto, ele responde: “Para mim, PRETO”. Ouve-se ao fundo alguém dizendo: “mas para mim parece falta de respeito”. A questão está posta, [email protected] ou [email protected]?

Sentido 

Creio que o fundamental neste debate é que Babu nos aciona a pensar sobre os sentidos das palavras. Como eles são construídos socialmente? Quem os constrói? Para quê? É fato que a palavra NEGRUM na sua origem etimológica não tinha nenhuma hierarquização ou atribuição negativa. De acordo com Rodrigues (2017), “No verbete negro, que o inglês importou do português ou do espanhol no século 16, o dicionário etimológico de Douglas Harper levanta a possibilidade de que a palavra latina seja derivada da raiz indo-europeia nekwt, ‘noite’, a mesma que deu em ‘night’”. Uma outra possibilidade é que signifique “cor escura”.

Nenhum desses atributos são pejorativos, no entanto, quando o colonizador passa a usar o termo NEGRO como sinônimo de pessoas escravizadas e estas tinham a pele da cor PRETA, também fabricam ideias sobre elas e as associam a ideia de sombrias, horrendas, malditas, lúgubres, tristes, infelizes, sujos, encardidas dentre outros. Ao lê-las é fácil deduzir qual era a intenção por trás desses sinônimos: desumanizar quem tem a cor da pele escura PRETA, e assim voltamos ao tema em debate.

Babu não quer ser chamado de NEGRO. Ele se sente melhor sendo chamado de PRETO, escolhe forma semelhante a que os negros estadunidenses se definem. Nos Estados Unidos da América “nigger” é uma ofensa sem tamanho, uma palavra impronunciável que carrega em si a perspectiva da supremacia branca. O racismo se expressa nela. Por isso, Black é como os afro-americanos se definem e Babu se sente melhor sendo chamado de PRETO.

Juventude e formação 

Nos últimos anos para muitas pessoas, especialmente, para a juventude esta é a melhor forma de ser identificada, ou seja, avança e ressignifica-se também este termo. Para que quem tem mais de 40 anos já a máxima “negro é raça preto é cor” é bem presente e Hédio Silva Jr já tratou deste tema na Folha de S.Paulo em 21/12/2002.

O Movimento NEGRO (atentem-se ao nome), por décadas ensinou para as pessoas (eu sou uma delas) a se declararem NEGRAS com orgulho. Mas, a questão não é simples e por isso há muitas teóricas e teóricos que se dedicam a pensar os termos identitários de brasileiros/ras. Nos levantamentos de dados do IBGE as categorias são outras: pretos, pardos, indígenas, brancos e amarelos e assim para dados estatísticos já se consolidou que é possível somar os grupos pretos e pardos em uma única categoria: NEGRA. Enfim, a polêmica suscitada em torno dos termos [email protected] ou [email protected] nos indica que tanto uma como outro pode ser usada para qualificar ou a desqualificar grupo social. Resta-nos buscar outra resposta e esta institucional.

O que tem feito o Brasil para combater o racismo que afeta a vida das pessoas NEGRAS como eu gosto ou PRETAS, como prefere Babu?

Edição: Pedro Carrano